Do coração e outros corações

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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Portugal, depois de 15 de setembro...

do Blog Passa Palavra, Portugal

15 de Setembro: declarar vitória?

18 de setembro de 2012  
Categoria: Portugal
Perante a mobilização de centenas de milhares de pessoas, o caminho mais fácil é declarar vitória. O uso do essencialismo parece-nos, contudo, pouco útilPor Passa Palavra

O contexto
A manifestação no Porto
A 7 de Setembro, o primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, dirige-se ao país em direto [ao vivo], antes de um jogo da seleção nacional de futebol. Nesta intervenção, anuncia o aumento de 7% do valor da taxa social única (TSU) a pagar pelos trabalhadores do privado e a diminuição em 5% do montante imposto às empresas. Uma medida que se vem juntar ao vasto pacote de austeridade que se acumula desde a primeira intervenção da Troika (FMI, Banco Central Europeu, Comissão Europeia) em 2010.
Ainda durante o governo do Partido Socialista (PS), a aplicação da receita austeritária pautou-se pelo congelamento de admissões e progressões de carreira para a função pública, aumento de impostos sobre o consumo, cortes no vencimento dos funcionários públicos superiores a 1500 euros, congelamento de pensões e aumento das taxas moderadoras nos hospitais.
Em meados de 2011, face aos constantes «avisos à navegação» realizados por autoridades económico-financeiras – da Troika às agências de rating –, a nova coligação governamental (Partido Social Democrata e Partido Popular) quebra a promessa eleitoral de não aumentar os impostos, aprovando um imposto extraordinário sobre os rendimentos equivalente a 50% do subsídio de Natal. Dias depois, é anunciado o corte dos subsídios de férias e de Natal dos trabalhadores do Estado. Paralelamente, verificam-se aumentos nos transportes públicos na ordem dos 15%, bem como no gás e na eletricidade.
No meio desta vaga de medidas, o governo altera a legislação laboral, facilitando os despedimentos, quer por via do alargamento do princípio de «inadaptação» do trabalhador ao seu posto quer através da diminuição das indemnizações por despedimento sem justa causa. A receita, no entanto, não surtiu efeitos. O fato da austeridade constituir um paradigma de governo económico transnacional levou a que a esperança no aumento das exportações não passasse disso mesmo. A exponencial subida dos preços e dos índices de desemprego acabou assim por conduzir à redução do poder de compra, à falência de pequenos negócios e, consequentemente, a um agravamento do desemprego [1]. Numa roda livre que se reproduz incessantemente e que não poupou aquela que, supostamente, seria a «menina dos olhos» dos partidos do centro: a mítica «classe média».
A manifestação em Lisboa
A natureza ideológica do termo «classe média» revela-se no caso português. O débil tecido produtivo nacional fez dos custos, não do produto, a sua vantagem competitiva, obtendo lucros fáceis a partir de salários baixos e dos mais variados «contorcionismos» fiscais. A injeção de fundos estruturais a partir de 1986, ano em que Portugal passa a integrar a Comunidade Económica Europeia (CEE), permitiu, no entanto, que uma importante parte da população portuguesa viesse a usufruir de casa própria, automóvel e férias uma vez ao ano. Um conjunto de regalias que detinha uma relevante componente simbólica, assinalando um status superior.
Entretanto, e apesar das ajudas financeiras, as estruturas produtivas pouco reformularam os seus pressupostos de funcionamento e a sua área de atividade. A sua modernização limitou-se apenas ao recurso às novas modalidades contratuais, mais «flexíveis», continuando assim a apostar no fator custo.
O fim do sonho da «classe média» iniciou-se, precisamente, em finais da década de 90, ao descobrir que os investimentos realizados nos seus filhos não haviam obtido os resultados esperados. Embora distante dos níveis da Europa mais «desenvolvida», e ainda com uma percentagem de abandono escolar bastante elevada, Portugal assistiu nos últimos anos à massificação do ensino secundário e superior. Porém, à saída da escola e da universidade, o jovem qualificado encontrou, na melhor das hipóteses, o emprego precário no centro comercial ou no call-center, algo apresentado como «sempre melhor do que estar desempregado». A «classe média» confrontava-se assim com a sua esterilidade. Uma frustração que, aliada aos constantes aumentos de preços, aos vários impostos inventados, ao crédito a pagar e, finalmente, à perda do emprego, levou a que, cabisbaixa, descobrisse os pés de barros sobre os quais assenta.
A manifestação
A comunicação das mudanças ao nível do pagamento da TSU originou um enorme surto de críticas, inclusive à direita. De notáveis do PSD, como Manuela Ferreira Leite, a presidentes de grupos económicos, como Belmiro de Azevedo, a oposição à medida foi geral, dadas as consequências restritivas sobre um poder de compra, por si só, já enfraquecido. A manifestação “Que se Lixe a Troika! Queremos as Nossas Vidas” acabou assim por adquirir uma dimensão inusitada. Com um discurso mais ambicioso do que as convocatórias anteriores, a manifestação partiu da iniciativa de um grupo de signatários individuais, quase todos eles ou figuras públicas de esquerda ou líderes de pequenas organizações. A decorrer em paralelo com manifestações em Espanha, a iniciativa espalhou-se a 40 cidades portuguesas e a alguns consulados portugueses no estrangeiro, tendo constituído talvez a maior manifestação das últimas décadas.
Em Lisboa, centenas de milhares de pessoas saíram da Praça José Fontana em direção à Praça de Espanha, num trajeto que procurava exprimir solidariedade com as mobilizações no país vizinho. Cerca de duas horas depois, na Avenida República, verificaram-se os primeiros momentos de tensão, com frutas, petardos [traques] e garrafas atiradas contra a sede da representação da Troika. Um indivíduo foi detido por polícias à paisana. Chegado ao fim do trajeto, milhares de pessoas, em geral mais jovens, decidiram continuar a manifestação, dirigindo-se para a Assembleia da República. A praça frontal do parlamento depressa se revelou demasiado pequena para a multidão que, durante mais de uma hora, foi chegando ao local. Foi aqui que se registaram os momentos de maior confronto entre manifestantes e autoridades policiais. Durante cerca de duas horas, garrafas, pedras e frutas foram lançadas de cada vez que as autoridades aumentavam os seus efetivos nas escadarias. Estas, por sua vez, realizaram pequenas cargas policiais, tendo, no final, detido quatro pessoas.
A atuação da polícia constituiu, aliás, uma das novidades desta manifestação. Ao contrário dos acontecimentos verificados na greve geral de 22 de Março [2], as forças policiais optaram por uma atuação mais estratégica: igualmente focada na demonstração de força, a sua ação revelou-se, contudo, menos centrada na violência desproporcional e mais concentrada na identificação de ameaças e no recurso a agentes à paisana na produção de detenções.
E agora?
Perante a mobilização de centenas de milhares de pessoas em todo o país, o caminho mais fácil é certamente declarar vitória. De bestas passivas, os portugueses ascenderam, repentinamente, a ativistas bestiais. O uso do essencialismo, por crença ou estratégia, parece-nos, contudo, pouco útil, dado o seu cariz a-histórico e, desde logo, não estratégico.
Uma manifestação que consegue encher as ruas de várias cidades do país, proporcionando momentos de alguma radicalidade [3], constituirá sempre um dado importante. No entanto, existem problemas estruturais, dificilmente resolúveis num só dia. Em primeiro lugar, conforme as pistas que aqui já foram dadas, a manifestação não deixou de revelar a falta de um horizonte político. Uma grande parte das pancartas e cartazes empunhados por manifestantes continua a ser preenchida por desabafos ou por simples recusas – do «Estou farto…», ao «Basta», passando pelo «Não à…”, as quais assinalam a inexistência de um projeto político mínimo. Sem este, qualquer crítica a apontar a partidos políticos e sindicatos, por mais certeira que seja, corre o risco de assumir uma posição meramente defensiva, facilmente manipulável por populismos e/ou poderes carismáticos. Em segundo lugar, não só a Grândola Vila Morena [hino da Revolução dos Cravos] foi menos cantada do que A Portuguesa [hino nacional], como a bandeira nacional foi, de longe, o símbolo mais visto em toda a manifestação [4]. Deste ponto de vista, o fato das políticas de austeridade resultarem de um processo de ingerência externa, alegadamente dedicado à diminuição da dívida pública, parece ter primazia sobre o cariz internacional do mesmo, com igual tipo de diagnóstico e de intervenção a ser realizado noutros países, como Grécia, Espanha ou Irlanda.
15 de Setembro constituiu, certamente, a prova de que ninguém anda a dormir. Porém, ele próprio indicia o quão longo e tortuoso será o caminho a percorrer.
Notas
[1] Ver o artigo “Crise na zona euro: ai, ai Portugal”, de João Bernardo , publicado no Passa Palavra.
[2] Ver o artigo “22 de Março de 2012: um dia para recordar”, de Ricardo Noronha, publicado no Passa Palavra.
[3] No Porto, algumas montras de bancos e seguradoras foram danificadas. Em Aveiro, um jovem de 28 anos imolou-se pelo fogo, apresentando várias queimaduras.
[4] Ver o artigo “O nacionalismo, a esquerda anti-capitalista e o euro”, de João Valente Aguiar , publicado no Passa Palavra.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Sábado em Portugal


Do Blog de Joana Lopes, Portugal
1º de Maio de 1974 – 15 de Setembro de 2012





O povo saiu à rua num dia assim



Um belo texto de Maria de Deus Botelho

Sabes, Avô, hoje fui até à Avenida dos Aliados, no Porto. Fui juntar-me a tantos que, como eu, não quiseram ficar em casa desta vez e preferiram ser parte activa nesta luta por um país mais justo, um país mais solidário. Éramos tantos, Avô… Um mar de gente, de todas as idades. Vi crianças da idade do teu bisneto que não chegaste a conhecer, vi velhos da idade que terias hoje se a vida não te tivesse levado antes do tempo. Cruzei-me com homens e mulheres que podiam ser meus pais, que seguramente sacrificaram tanto para darem aos filhos a educação que muitos deles não tiveram e que, agora, os vêem sair do país em busca de um futuro que, aqui, já não têm.

Estavam lá gerações inteiras, Avô. Pais que levavam os filhos e filhos que levavam os pais. Avós que se apoiavam nos netos e netos que estavam ali também pelos seus Avós. Todos em luta serena e pacífica.

Fomos pacíficos mas não fomos silenciosos. Ouviram-se cânticos, gritaram-se palavras de ordem; bateram-se palmas e lançaram-se assobios; cantou-se o Hino, Avô, A Portuguesa, que sempre te encheu o peito. Empunharam-se cartazes com dizeres mais ou menos criativos. Tudo feito por gente que se recusa a desistir, que renega a resignação, que insiste em lutar.

Hoje, Avô, eu fiz aquilo que me ensinaste toda a vida: ergui bem alto a cabeça e exigi os direitos por que tanto lutaste. Hoje, a minha voz também se fez ouvir, contra o exagero, contra o sacrifício desmesurado, contra o retrocesso. Hoje, fui verdadeiramente tua neta: um soldado na luta incessante por um futuro melhor, mais digno, mais verdadeiro.

Foi o começo, Avô. Será preciso muito mais, será necessário ser muito melhor. Mas hoje, Avô, eu fiz aquilo com que sonhei tantas vezes: eu comecei mesmo a mudar o mundo.

Se cá estivesses, provavelmente ter-me-ias pedido cautela; assim, vieste comigo e a tua voz foi a minha voz, a tua força foi a minha força. Foi quando te senti em mim que me lembrei do cântico que tantas vezes cantámos no jardim da casa da aldeia: “…o povo é quem mais ordena…”. Também se cantou, Avô. Bem alto, como deve ser. O povo saiu à rua. E fez-se ouvir.

(Daqui.)