Do coração e outros corações

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segunda-feira, 19 de novembro de 2012


Deriva autoritária na Europa

do Blog de Joana Lopes, Portugal...

Via ATTAC, cheguei a este texto de Xavier Caño Tamayo, que pode ser lido na íntegra aqui.

«Os fascistas da Aurora Dourada e os grupos ou partidos xenófobos de extrema-direita da Holanda, Bélgica e outros países europeus são certamente detestáveis e dignos de toda a rejeição; há que estar alerta, tomar precauções e tentar isolá-los. O seu crescimento nos últimos anos, alimentado pelos medos que suscita a crise que assola a Europa, é preocupante. Mas não são o maior perigo dos nossos dias. É a própria classe política dirigente europeia, ao serviço descarado do poder financeiro, que caminha para o autoritarismo e se encarrega da democracia. Barroso, Draghi, Van Rompuy, Olli Rehn, Merkel, Rajoy, Monti, Samaras, Passos Coelho e companhia não precisam dos esquadrões fascistas tradicionais. Por agora. Eles desmantelam o sistema democrático sem a ajuda de fascistas by the book, porque prescindem olimpicamente da cidadania, nem lhes ocorre ouvi-la, ignoram-na, violam os seus direitos e reprimem duramente quando se resiste ou se protesta. Além disso, o que é insultuoso é que pretendam ser defensores da democracia quando o que fazem é esvaziá-la de conteúdo. Reduzem-na a um cenário, a uma liturgia, a algo que parece uma farsa. (...)

William Shakespeare escreveu que "a erva cresce à noite e que, quando os ricos saem para passear no dia seguinte, já cresceu entre as lajes do átrio". Para bom entendedor ... Porque o mundo nunca mudou pela generosidade de quem tem o poder, o mundo mudou pelo protesto, pela resistência e pela acção dos governados e explorados: o mundo mudou sempre apesar dos que mandavam e detinham o poder. Porque, em última instância, a democracia verdadeira não é um objetivo, mas um caminho. Por muito que lhes custe.» 

domingo, 19 de agosto de 2012


17.8.12

Baixar salários?

do Blog de Joana Lopes

Através da ATTAC Maiorca, cheguei a este texto de Vicenç Navarro, cuja leitura na íntegra recomendo: ¿Bajar los salarios para salir de la crisis? 

Alguns excertos: 

 «Un dogma que se ha extendido en los establishments financieros, económicos, mediáticos, académicos y políticos de España es que para salir de la crisis hay que bajar los salarios. (...) El argumento que se utiliza para justificar tales medidas es que, al no poder devaluar la moneda (posibilidad denegada a los países de la Eurozona al tener todos ellos la misma moneda) a fin de abaratar los productos y hacer al país más competitivo, la única solución que les queda a tales países que están en recesión es abaratar los productos a base de disminuir los salarios. De esta manera serán más y más competitivos y venderán más productos, exportando más y más, convirtiendo tales exportaciones en el motor de la economía, permitiendo así que salgan de la recesión. (...) 

Tal dogma, como todos los dogmas, se basa en fe en lugar de evidencia científica. En primer lugar, incluso si aceptáramos por un momento la necesidad de devaluación doméstica, tal bajada de los costes de producción puede hacerse a base de reducir los beneficios empresariales, en lugar de los salarios, posibilidad que casi nunca se menciona. Y cuando, raramente se hace, es para descartar tal posibilidad pues –según ellos- ello desincentivaría la inversión. (...) 

En España y en Portugal, sin embargo, las exportaciones sí que han crecido sobre todo a partir del 2009. Tal crecimiento sin embargo no ha sido suficiente para reavivar la economía de tales países. En ambos países, la gran destrucción de empleo (en parte responsable del aumento de la productividad), consecuencia de las políticas de austeridad y de la gran bajada de salarios, ha creado una recesión tal que el aumento de las exportaciones no ha sido suficiente para estimular de nuevo la economía. La bajada de salarios que en teoría está aumentando las exportaciones está a la vez deprimiendo la economía doméstica, venciendo esta última a la primera.(...) 

Frente a un sector exportador vivo, existe una economía doméstica paralizada por una enorme falta de demanda, creada por la confluencia de bajada de salarios, destrucción de empleo, y reducción de gasto público. Esta fue la situación en Latino América en el periodo neoliberal y ésta es la situación en los países PIGS ahora (convertido en GIPSI, con la inclusión de Italia). (...) 

La respuesta del establishment alemán no es estimular la demanda en Alemania y en los otros países de la Eurozona sino al contrario. Sus políticas públicas están recortando los salarios de los trabajadores alemanas y (presionando a través del Bundesbank y, por lo tanto, del BCE) de los trabajadores de los países periféricos de la Eurozona, conduciendo al precipicio a toda la Eurozona. Se inicia así una competición para ver quién paga menos a sus trabajadores. Estos son los costes de continuar creyendo en el dogma neoliberal. Pero como bien ha dicho la Organización Internacional del Trabajo, en su respuesta al informe del BCE, tal estrategia llevará a una depresión no solo europea sino mundial.» 

terça-feira, 26 de junho de 2012


TERÇA-FEIRA, 26 DE JUNHO DE 2012
por Daniel Oliveira do Blog ARRASTÃO, Portugal


Depois de criticar as políticas espanholas, portuguesas, gregas e italianas, o governo alemão reagiu mal às críticas de Obama à forma calamitosa como a Europa está a gerir a sua crise. E, claro, mandou os Estados Unidos preocuparem-se com o seu défice. Apesar de toda esta arrogância, continua a fazer caminho a ideia de que devemos compreender o comportamento alemão. Os contribuintes germânicos estão fartos de pagar por os erros dos outros. A ver se nos entendemos: a Alemanha tem enormes responsabilidades por esta crise, lucra com ela, mas tem imenso a perder com o fim do euro.

Quanto às fortíssimas responsabilidades do poder político alemão pela crise do euro, deixo para um outro texto. Aarquitetura desta moeda é, no essencial, de inspiração alemã. E os desequilíbrios comerciais na Europa, alimentados por uma contenção salarial na Alemanha que visou criar um mercado aberto de uma só via, ajudaram a agudizar a crise.

Muitos sofrem com a pobre Alemanha, que alimenta fluxos de dinheiro que desaguam em Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda. Dinheiro que serve quase exclusivamente para Estados e bancos nacionais pagarem as suas dívidas. Esquecem-se que o principal destinatário final desse dinheiro é a banca alemã (e algumas outras do centro da Europa). Ou seja, que não são os alemães que estão a pagar o resgate de Estados europeus, são os europeus que estão a pagar o lucro da banca alemã.

A banca alemã foi a principal benificiária dos endividamentos públicos de alguns países e do endividamento privado de muitos bancos europeus. Quando a senhora Merkel acusou a Espanha de irresponsabilidade, na última década, imagino que pensando na enorme bolha imobiliária que a banca alimentou, esqueceu-se de incluir nessa crítica a banca do seu próprio país, que andou a jogar no mesmíssimo negócio. Chegada a hora de pagar factura, grande parte dos 100 mil milhões que foram despejados nos bancos de Espanha acabarão nos cofres dos bancos alemães (e franceses, britânicos e belgas). Têm pena dos alemães que estarão a pagar a factura dos outros? Não precisamos de fazer um grande esforço para desmentir este mito: O Deutsche Bank teve um lucro de 8.000 milhões de euros em 2011. Entre 2009 e 2011, em plena crise financeira e do euro, os lucros do principal banco alemão aumentaram 67%. Percebem agora para onde está a ir o dinheiro?

Quando muita gente avisa que um dia destes os alemães se podem cansar de portugueses, espanhóis, gregos, irlandeses, italianos... enfim, de toda a Europa, e seguir o seu caminho, não deixo de me comover com tanta ingenuidade. Sim, os portugueses ou os gregos sofrerão muito com uma saída do euro. Mas, apesar da tragédia que sobre eles se abaterá, recuperarão capacidade de determinar as suas políticas monetárias, fiscais e económicas, agora decididas em Berlim. Se o euro acabar, a Alemanha perde tudo. Até por uma razão simples: foi ela quem mais ganhou com ele.

Segundo um documento interno, que está nas mãos do ministro das Finanças alemão e chegou à imprensa, o fim do euro significaria, para a Alemanha, uma queda em 10% do seu PIB, logo no primeiro ano, e um desemprego que atingiria pelo menos cinco milhões de pessoas. A mim, confesso, estas previsões até me parecem optimistas. A coisa é um pouco mais grave: sem o euro, a Alemanha tornar-se-ia, num mundo globalizado, virtualmente irrelevante. Seja como for, uma fonte não identificada do Ministério das Finanças Alemão explicou ao "Der Spiegel" que, "comparando com esse cenário de rotura da zona euro, qualquer resgate parece um mal menor". Uma informação que os vários Estados europeus devem reter.

Dirão: se a Alemanha ganhou mais com o euro, com o mercaodo único e com os erros alheios, foi porque soube tratar de si. Concordemos com esse raciocínio. Mas temos de o levar até ao fim: se a Alemanha soube usar as fragilidades dos outros para lucrar com elas, que tal os outros fazerem o mesmo com a Alemanha? E a sua fragilidade é a sua absoluta dependência em relação ao futuro do euro e a sua enorme exposição às dívidas públicas e privadas europeias. Têm muito a perder com o fim do euro? Então paguem a factura da vossa própria sobrevivência. Os seus bancos sofrerão muito com o incumprimento no pagamento das dívidas de Estados e bancos? Então ajudem a Europa a sair desta crise ou preparem-se para sofrer as suas consequências.

Na realidade, nós estamos todos a pagar para a Alemanha manter, numa Europa disfuncional, um poder económico para o qual não tem, sem a União e o euro, dimensão. E está na altura de pensarmos como um alemão e dizermos à senhora Merkel: ou faz parte da solução ou prepare-se para umas décadas de penúria. Quer mesmo arriscar o fim do euro? Não? Então ponha-se fina. O problema é que temos todos sido os anjinhos no meio de um jogo de poker. Está na altura de desfazer o bluff alemão.

Publicado no Expresso Online

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Poucos inocentes

do Blog de Joana Lopes, Portugal e a crise duríssima que arrasa jovens, velhos e ....

No Expresso de hoje, um longo texto, violentíssimo, de Miguel Sousa Tavares. Alma caridosa mo enviou por mail, caridosamente aqui fica.

Alguns excertos e na íntegra também.

«Que o trio formado pelo careca, o etíope e o alemão ignorem que em Portugal se está a oferecer 650 euros de ordenado a um engenheiro electrotécnico falando três línguas estrangeiras ou 580 euros a um dentista em horário completo é mais ou menos compreensível para quem os portugueses são uma abstracção matemática. Mas que um português, colocado nos altos círculos europeus e instalado nos seus hábitos, também ache que um dos nossos problemas principais são os ordenados elevados, já não é admissível. Lembremo-nos disto quando ele por aí vier candidatar-se a Presidente da República. (…)

Quando um dia se fizer a triste história destes anos de suicídio europeu, haveremos de perguntar como é que a Europa foi governada e destruída por um clube fechado de irresponsáveis, sem uma direcção, uma ideia, um projecto lógico. Como é que se começou por brincar ao directório castigador para com a Grécia para acabar a fazer implodir tudo em volta. Como é que se conseguiu levar a Lei de Murphy até ao absoluto, fazendo com que tudo o que podia correr mal tivesse corrido mal. (…)

Ou como é que um pequeno país, como Portugal, experimentou uma receita jamais vista — a de tentar salvar as finanças públicas através da ruína da economia — e que, oh, espanto, produziu o resultado mais provável: arruinou uma coisa e outra. E como é que, no final de tudo isto, as periferias implodiram e só o centro — isto é, a Alemanha e seus satélites — se viu coberto de mercadorias que os seus parceiros europeus não tinham como comprar e atulhado em triliões de euros depositados pelos pobres e desesperados e que lhes puderam servir para comprar tudo, desde as ilhas gregas à água que os portugueses bebiam.

Deixemos os grandes senhores da Europa entregues à sua irrecuperável estupidez e detenhamo-nos sobre o nosso pequeno e infeliz exemplo, que nos serve para perceber que nada aconteceu por acaso, mas sim porque umas vezes a incompetência foi demasiada e outras a inocência foi de menos. (…)

Tenho muitas mais ideias, algumas tão ingénuas como estas, mas nenhumas tão prejudiciais como aquelas com que nos têm governado. A próxima vez que o careca, o etíope e o alemão cá vierem, estou disponível para tomar um cafezinho com eles no Ritz. Pago eu, porque não tenho dinheiro para os juros que eles cobram se lhes ficar a dever.»