Do coração e outros corações

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sábado, 3 de dezembro de 2011

Egito...

A caminho da Praça Tahrir

do Blog de Rui Bebiano aqui
Agora que os destinos do Egito retornam à encruzilhada, com os militares ainda no poder, os muçulmanos moderados a ganharem as eleições e os radicais salafistas a obterem 30% dos votos expressos, reivindicando as regras medievais da sharia como fundamento da nova Constituição, vale a pena lembrar o nascimento da Praça Tahrir como território simbólico e elemento orgânico do encontro de credos e do combate pela liberdade.


Em 25 de janeiro de 2011, o dentista e escritor egípcio Alaa Al Aswany, fundador do movimento oposicionista Kefaya que havia anos preparava a mudança no Egito, chegou atrasado à manifestação da Praça Tahrir que iria marcar o fim do regime despótico de Hosni Mubarak. Quando foi avisado do que estava a acontecer, vestiu-se à pressa e correu para se juntar ao milhão de compatriotas que haviam saído à rua para exigir a queda do regime. Ali permaneceu dezoito dias, vivendo os acontecimentos revolucionários e assistindo ao renascimento de um país que em todo o mundo muitos olhavam como destinado a viver na indolência, na estagnação e sob o jugo da bota militar.

Este O Estado do Egito recua um pouco no tempo e reproduz mais de quatro dezenas de crónicas publicadas em jornais entre 2008 e 2010. Nelas se abordam temas tão diversos, que a revolução iria rapidamente passar para o centro das atenções, como o autoritarismo e a corrupção do regime, a estagnação económica, a brutalidade da polícia, a pobreza endémica, a repressão das mulheres, o cerco vivido pelas minorias cristãs, o lugar do fanatismo ou a construção da democracia. Em todos esses artigos se pode entretanto detetar uma leitura comum, ajustada a duas linhas coincidentes e complementares que o movimento revolucionário irá adotar. A primeira aponta para aquilo a que o escritor discutivelmente chama o «caráter especial» da generalidade dos egípcios, que os terá tornado «menos propensos ao conflito e mais inclinados ao compromisso», à recusa maioritária da violência e da tentação do extremismo político e religioso. A segunda, decisiva nos acontecimentos de janeiro, leva-o a considerar que os seus compatriotas «como camelos», suportando a repressão, as humilhações e a fome por muito tempo, mas com uma enorme capacidade, quando finalmente se revoltam, de o fazerem «subitamente e com um ímpeto que é impossível controlar».
Este livro ajuda-nos a mitigar a surpresa causada na maior parte do mundo pelo eclodir da aparentemente inexplicável revolução egípcia, e a compreender o impulso de esperança e de mudança que esta suscitou. Mas também a vislumbrar, por vezes mascarados, alguns dos seus piores inimigos.

Alaa Al Aswany, O Estado do Egito. Trad. de Lucília Filipe. Quetzal. 296 págs. Versão revista de uma nota publicada na LER de Novembro de 2011.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Egito, Tahrir ...

Tahrir do Blog de Joana Lopes, Entre as brumas da memória aqui


Mais um texto de Paulo Moura a não perder, na Pública de hoje (sem link):

«Era uma confiança tremenda, ou uma fantasia, uma presunção, ou uma gabarolice do povo. Digam o que quiserem. E, mesmo que as multidões de Tahrir tivessem o poder real de um exército, poder-se-ia ainda dizer que são uma força inútil, porque não sabem o que querem. Estive lá e confirmo: não fazem a mínima ideia. Mas as revoluções foram sempre feitas por quem não sabe o que quer. Os que sabem chegam depois, para as destruir. (…)

Outros países não têm Tahrir, o que os torna muito mais fracos. Nem podiam ter, é claro. As situações são incomparáveis. O maior desejo que os jovens egípcios ousavam exprimir, no auge do seu martírio, era o de uma democracia capitalista igual à que nos trouxe até à actual crise.

Hoje, só porque há Internet e telemóveis, tudo nos parece global, mas os ideais da Primavera árabe não têm nada a ver com os propósitos do movimento Occupy Wall Street ou os Indignados. Todos sabemos que não há nada em comum. E ao mesmo tempo todos sentimos que há.»


Na íntegra:
Temos sempre Tahrir

Ninguém sabe o que é Tahrir. Mas Tahrir existe. Lembro-me dos dias seguintes à queda de Mubarak. Muitos queriam continuar na praça. Não estavam satisfeitos. O que tinham conseguido era imenso, ainda assim pouco.
Era verdade que tinham fixado como objectivo a queda do ditador. Fora do Egipto, ninguém achava que isso fosse possível. No próprio Egipto, a maioria também não acreditava, a começar pelos que se fingiam mais optimistas. Mas, após muitos muitas manobras, muitas manipulações, Hosni Mubarak acabou por se demitir. Após muitos mortos também.
Foi o problema. Uma coisa são milhares de jovens manifestando-se e festejando numa praça. Tudo o que conseguissem seria um milagre. Outra coisa são esses jovens a morrer. Isso fez o preço subir muito. Uma vitória de Pirro já não seria suficiente. Nem sequer uma conquista simbólica em troca. Agora era preciso ir até ao fim. Mas o que era o fim?