Do coração e outros corações

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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Madame Lagarde e a Grécia

O quê? A Grécia não é a Letónia? por Joana Lopes, Portugal, Blog Entre as brumas da memória



Christine Lagarde declarou ontem, em entrevista ao jornal sueco Svenska Dagbladet, que «a Grécia e outros países confrontados com a crise da dívida deviam inspirar-se no programa de reformas aplicado pela Letónia» – um caso de sucesso, na sua opinião.

As reacções não se fizeram esperar, nomeadamente em Atenas, onde a responsável pelo FMI é acusada de estar «um pouco confusa». Depois de ter dito, há alguns meses, que a Grécia devia atingir o nível da Croácia, virou-se agora mais para Norte – não para a Suécia, nem para a Finlândia, mas para a Letónia.

E recorda-se uma análise que já tem alguns meses (publicada em 27 de Maio de 2011), onde se enumeram os motivos pelos quais o programa de austeridade da Letónia não é aplicável a outros países:

«Uma vantagem [da Letónia] era ter um nível muito baixo de dívida pública no início da crise. Em 2007, a dívida bruta do governo da Letónia era apenas 9 por cento do PIB, bem menor do que os 25% da Irlanda e muito melhor do que a situação de Portugal (68%) ou da Grécia (105%). É claro que a recessão fez subir a dívida e esta deve ultrapassar 50% do PIB no próximo ano. Ainda assim, a situação é muito melhor do que a dos outros três países que estão a receber ajuda de emergência da União Europeia e do FMI, os quais, em breve, verão a dívida ultrapassar 100% do PIB. Ao longo da história, muito poucos países recuperaram, sem default, de rácios da dívida pública superiores a 100%.

Uma segunda vantagem é que a Letónia dependia pouco do sector bancário doméstico. Os bancos com base na vizinha Escandinávia dominam o mercado, todos foram atingidos pela bolha imobiliária letã, mas nenhum faliu. Mais importante ainda: poucas perdas bancárias apareceram nos balanços do governo letão. Parex, o maior banco doméstico, foi a única excepção: faliu e foi nacionalizado em 2009, mas a sua quota de mercado no início da crise era apenas 14%. A situação contrasta com a da Irlanda, onde o governo assumiu perdas com a falência dos seus grandes bancos, perdas essas que fizeram com que a modesta dívida pública, com que o país entrou na crise, parecesse uma ninharia.

A terceira vantagem para a Letónia foi ter uma situação política bastante estável. Seria um exagero dizer que a austeridade foi uniformemente bem recebida pelos eleitores, mas eles reelegeram o governo, em Outubro de 2010, facto citado positivamente pelas agências de rating e raramente o país tem assistido a manifestações violentas. Pelo contrário, os programas de austeridade deitaram abaixo os governos da Irlanda e de Portugal e aumentaram a incerteza. (…)

Tomando em conjunto estas considerações, pode-se concluir que a austeridade era o caminho correcto para a Letónia? Não necessariamente.

A Letónia é diferente da Grécia, da Irlanda e de Portugal ainda por um outro factor importante: não é membro da zona euro. Apesar de a sua moeda ter sido indexada ao euro desde 2005, essa ligação é puramente voluntária. Ao passo que não há nenhuma maneira fácil para que um membro da zona euro regresse à sua própria moeda, a Letónia poderia terminar a sua política de câmbio fixo a qualquer momento.»

(Publicado também aqui.)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Grécia

do Blog de Joana Lopes, Portugal

Os gregos não pagam impostos?



Não pára a discussão sobre o tema, trazido de novo às «gordas» da comunicação social pelas recentes declarações da responsável pelo FMI, Christina Lagarde.

Talvez valha a pena citar Eric Toussaint, especialmente conhecedor dos meandros das dívidas e das suas raízes, que, em entrevista recente, recordou muito claramente o seguinte:

«Há algumas categorias da sociedade [grega] que não pagam impostos, mas não são os trabalhadores. Por exemplo, a Igreja ortodoxa não paga impostos, assim como todos os armadores de navios, que constituem um sector extremamente poderoso da economia grega. São os seus privilégios que alimentam os deficits e estes levam ao aumento da dívida pública.»

Não li o Memorando que o governo grego assinou com a troika. Mas gostava mesmo de saber se impõe a cobrança de impostos às duas entidades referidas por Toussaint: a Igreja ortodoxa e os armadores.

domingo, 27 de maio de 2012

Humor negro da madame

Do Blog de Joana Lopes, Portugal

A compaixão de Madame Lagarde



Uma entrevista a Christine Lagarde, ontem publicada em The Guardian, está a correr mundo.

Quando a jornalista lhe pergunta se, ao analisar as contas da Grécia, só pensa em números ou também se lembra das mulheres gregas sem assistência quando dão à luz, dos doentes sem medicamentos e dos velhos que morrem sozinhos sem direito a cuidados, responde:

«Penso mais nas criancinhas de uma escola numa pequena aldeia da Nigéria, que têm duas horas por dia de aula, com uma cadeira para três crianças e que, mesmo assim, conseguem estudar. Penso nelas permanentemente e acho que precisam de mais ajuda do que as pessoas em Atenas.»

Se estamos em maré de humor negro, vamos a isso: na tal aldeia da Nigéria não existirão prédios mas só palhotas, e não haverá portanto o perigo de um homem de 60 anos, desesperado, se atirar de uma janela de mão dada com a mãe, de 90, como aconteceu na Grécia. Se também querem defenestrar-se, construam arranha-céus, seus idiotas!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Grécia e o G8

Grécia: G8 dixit



Sem surpresa, ontem, em Camp David, os membros do G8 sublinharam a «importância de manter a Grécia numa zona euro forte e coesa» («enquanto cumpra os seus compromissos«) (*).

Pode parecer tratar-se de uma simples declaração de circunstância, mas não o creio. Cada vez é mais evidente que ninguém (nem sequer a senhora Merkel…) quer uma Europa sem a Grécia. Não por filantropia nem por solidariedade, mas para não a entregar de mão beijada à Turquia – e, ainda menos, à Rússia – com todas consequências, não só económicas mas geoestratégicas. Ingénuos não somos…

Mas as pressões continuarão, e a chantagem também, para que os gregos ressuscitem a coligação dos partidos de centro e garantam a inviolabilidade do Memorando. O que acabará, ou não, por acontecer. Três sondagens, ontem divulgadas, aí estão para mostrar que tudo está ainda em aberto.

Percentagens dos partidos mais votados (sem indicação dos outros, dos indecisos e da abstenção declarada):

Syriza 28%, ND 24%, Pasok 15%, Independent Greeks 8%, Democratic Left 7%, KKE 5%, GolDawn 4,5%

ND 24.4%, Syriza 23.8%, Pasok 14.5%, Independent Greeks 8.5%, KKE 5.9%, Golden Dawn 5.8%, Democratic Left 6.9%

ND 23.1%, Syriza 21.4%, Pasok 13.5%, Independent Greeks 7.3%, KKE 5.2%, Golden Dawn 5.2%, Democratic Left 6%

Ainda faltam quatro semanas para as eleições!...

5. We welcome the ongoing discussion in Europe on how to generate growth, while maintaining a firm commitment to implement fiscal consolidation to be assessed on a structural basis. We agree on the importance of a strong and cohesive Eurozone for global stability and recovery, and we affirm our interest in Greece remaining in the Eurozone while respecting its commitments. We all have an interest in the success of specific measures to strengthen the resilience of the Eurozone and growth in Europe. We support Euro Area Leaders’ resolve to address the strains in the Eurozone in a credible and timely manner and in a manner that fosters confidence, stability and growth.