Recebi do Raymundo e repasso
Folha de S.Paulo; São
Paulo, terça-feira, 29 de maio de 2012
![]() |
![]() |
|
Lições do melhor
professor que conheci
Só fez doutorado por exigência da USP, não era um cientista. Mas
Almir sabia ensinar. Hoje, a universidade não valoriza o docente que não faz
pesquisa
Aos 75 anos, morreu na semana passada, vítima de uma parada cardíaca, Almir Massambani, docente de física
desde 1962 na USP de São Carlos. Seu nome é pouco conhecido, a não ser por
seus ex-alunos.
Almir foi um professor de verdade. Não
era um cientista, fez um doutoramento porque a USP exigiu, mas o que ele
gostava mesmo de fazer era de ensinar, conviver e amar seus
estudantes. E era amado por eles. Fazia questão que seus alunos aprendessem o
que estava ensinando.
Era professor por excelência, pois o que o motivava e preocupava era o
sucesso do aluno, não o seu próprio - figura rara nas universidades de hoje, pois o bom docente que não pesquisa tem
pouquíssimos mecanismos de valorização e promoção.
Formar bem profissionais e novas lideranças pode exigir produção,
aplicação e divulgação de novos conhecimentos, mas para ensinar bem é preciso
vocação e preparo específico. Caso contrário, essas instituições não deveriam
ser universidades, mas centros de pesquisa.
O que mais vejo nos meus estudos sobre
evasão no ensino superior: a pouca atenção que se dá ao aluno ingressante é
uma das maiores causas do abandono de cursos, como já provou
Vincent Tinto, o maior especialista do mundo no assunto.
O que vemos mais é a nostalgia -por vezes revoltada- que os docentes
demonstram com a qualidade dos alunos que recebem quando comparada à de
épocas passadas. Isso é um fato na maioria dos lugares, mas temos que lidar
com os alunos como eles são, buscando formas de fazer com que acompanhem o
curso.
Como eu sou natural do Rio (e Almir também era), sempre comentávamos que
"jacaré" se pega no início da onda. No ensino, não é diferente. Se
o aluno não pega a "onda" nos primeiros meses de aula, a onda passa
e ele fica -ou seja, não acompanha a disciplina, é reprovado e, muitas vezes,
desiste do curso. Uma perda para ele, para a instituição e para a sociedade
como um todo, pois o país fica mais pobre!
Almir aplicou esse princípio ao enfrentar uma turma problemática no
primeiro ano do nosso Instituto de Física de São Carlos. Sentou-se com a
turma e quis entender qual seria o ponto correto de partida -não aquele que
está nos livros, mas aquele que a turma poderia acompanhar.
Explicou o que precisariam saber para poder iniciar a disciplina, orientou
a cada um para cobrir as lacunas por um mês e, a partir daí, iniciou o curso
propriamente dito. Sucesso absoluto, reprovação baixíssima.
Hoje, o querido Almir seria o que se chama "coach", figura tão
valorizada nos processos de formação intelectual, artística ou esportiva.
Quando elogiado, perguntava: "Não é obrigação do professor fazer o
aluno aprender?" Esse era o Almir. Um grande professor, o melhor que
conheci. E um grande amigo.
ROBERTO LEAL LOBO E SILVA FILHO, 73, professor titular aposentado do Instituto de
Física de São Carlos da USP, é presidente do Instituto Lobo. Foi reitor da
USP
|
Nenhum comentário:
Postar um comentário